• O homem que vive na Reserva do Morro Grande há mais de 40 anos

    Por em dezembro 15, 2017
    José Nali comemora 42 anos de trabalho na Sabesp. (Foto: cotiatododia)

    José Nali comemorou 42 anos de trabalho na Sabesp em Agosto. (Foto: cotiatododia)

    Ele é o funcionário mais antigo da Estação da Sabesp e conhece a Reserva melhor que qualquer outra pessoa.

    Imagina um matuto que vive a maior parte de seu tempo no meio da mata, ou melhor, da floresta do Morro Grande, a segunda maior floresta urbana do Brasil, perdendo apenas para a da Tijuca, no Rio de Janeiro.  Ao contrário do que você pensa, ele é responsável técnico pelo controle do nível d’água da represa Pedro Beicht, que fica no coração da Reserva do Morro Grande e fornece água para mais de 400 mil pessoas da Capital e Grande São Paulo.  

    Imagina um caboclo bom de proza, destemido, conhecedor do bioma da Reserva do Morro Grande, que atende a qualquer pessoa com alegria, simplicidade, sempre disposto a falar das riquezas desta região principal tesouro ambiental de Cotia e da Grande São Paulo.

    Imagina alguém que poderia apenas cuidar de seu trabalho técnico, mas que tem consciência, defende e sofre com a depedração ambiental que a Reserva do Morro Grande e a Represa Pedro Beicht vem sendo vítima nos últimos anos.

    Imagina alguém que poderia, simplesmente, cumprir seu trabalho técnico, mas não consegue ficar à margem, e denuncia as ações que podem levar este santuário a uma degenaração ambiental perigosa.

    Quem é  Ele?

    Com 42 anos de trabalho na Sabesp, José Nali, é com certeza a melhor pessoa para se falar das histórias e mudanças na Reserva do Morro Grande, no aniversário de 100 anos da Estação de Tratamento da Sabesp do chamado Alto Cotia.

    Aposentado  e com 65 anos, além de nos dar entrevista, foi o guia turístico da equipe do cotiatododia para  mostrar um pouco do lado ainda desconhecido da cidade e nos levou até o o coração da Reserva Morro Grande, onde fica a principal barragem, a conhecida como Pedro Beicht e depois, à Barragem da Graça, onde funciona a Estação de Tratamento, fundada em 1917, há 100 anos.

    ‘Seu’ Nali, como é mais conhecido, morava em Pereiras, interior de São Paulo, e chegou a Cotia em Agosto de 1975, com a certeza de trabalhar na Sabesp. Como uma grande contratação de técnicos à época e o sonho da sua mãe, ele viu a chance de trocar o trabalho de jovem na roça.

    Durante os primeiros 22 anos, morou no Morro Grande, próximo ao trabalho. José Nali é responsável por controlar o nível da água das Barragens Pedro Beicht e da Represa da Graça.

    Sistema de nivelamento da água (Foto: cotiatododia)

    Sistema de nivelamento da água (Foto: cotiatododia)

    Lembranças

    Foram 10 km de trilha no meio da Reserva, para chegarmos até a Barragem Pedro Beicht. Nos últimos dois anos, ‘seu’ Nali viu duas onças serem soltas nessa trilha. Ele lembra: “no caso da última onça, encontrada em Itapecerica da Serra, provavelmente já era residente da Reserva, que faz divisa com o município”.

    Na hora de soltar o felino, um rapaz estava vindo de bicicleta na mesma direção, “e começou uma gritaria de desespero e depois, de muita risada”.

    Trilha sentido a Barragem Beicht, onde a onça foi solta (Foto: cotiatododia)

    Trilha sentido a Barragem Beicht, onde a onça foi solta (Foto: cotiatododia)

    Já em meados da década de 80, ele relembra que um o amigo à época “estava passando rádio sobre o nível da água, e ficou preocupado com o barulho que ouvia vindo do mato, achando que era um avião caído … Ele só não sabia que daqui dava pra ouvir o barulho do trem que passa em Caucaia”  e começa a rir muito, em mais uma prova de alguém que conhece como poucos a região – e prossegue,  “hoje, ele está velhinho também, mas não esquecemos ” – e mais risos.

    Tecnologia do trabalho

    Em mais de 4 décadas trabalhando na Sabesp, certamente, o ‘seu’ Nali também passou por muitas mudanças com o avanço das tecnologias.

    Em 1975, quando chegou em Cotia, uma pessoa era responsável, por exemplo, em avisar o quanto choveu na represa,  como está o nível da água, tudo para garantir o abastecimento.

    Hoje, ele consegue ficar na base e checar tudo via satélite. Apesar dos avanços, ‘seu’ Nali acredita que a reserva perde um pouco, “a ausência de mais fiscalização dos funcionários e da polícia ambiental, alguma coisa sempre acaba perdendo”.

    Em breve, com mais uma nova tecnologia, ‘seu’ Nali vai poder controlar o nível da água, sem precisar ir até a reserva, usando apenas o celular. Sinais de um novo tempo. Que seja, também, a favor da preservação da Reserva do Morro Grande.

    Seu Nali é responsável por controlar o nível do abastecimento  da água (Foto: cotiatododia)

    Seu Nali é responsável por controlar o nível do abastecimento da água (Foto: cotiatododia)

    Relação com a Natureza

    O que faz ‘seu’ Nali ganhar o dia, diz ele,  “é quando consigo identificar alguns bichos”.  Na mata tem muito jacutis, capivaras, antas, saguis, esquilos, onças e outros animais. “Outro dia mesmo, eu vi 12 filhotes de jacuti andando juntos, foi uma coisa muito linda”. Infelizmente, a equipe não encontrou nenhum desses bichos no dia da reportagem.

    Por outro lado, ‘seu’ Nali se diz muito triste com a não valorização da Reserva. Há pouco tempo, ele lembra de encontrar um caçador carregando algum bicho. “Nós chamamos a polícia, mas não resolveu muita coisa” – e complementa, “Não se dá o valor que a Reserva merece. No futuro, isso vai ser uma joia”.

    “Meio ambiente é uma coisa que todo mundo tem solução, mas não soluciona”, acredita ele, ao ser questionado sobre a relação com a natureza. Ele diz  também que mudou muito seu olhar sobre a mata quando passou a trabalhar na reserva. “Eu não respeitava o meio ambiente, mas adquiri muito conhecimento, ajudei no reflorestamento e ainda dá pra melhorar muito”. E prossegue num novo alerta sobre quem frenquenta a Reserva do Morro Grande: “No futuro,  nossos filhos e netos também merecem ver e viver tudo isso […] não custa nada, por exemplo, recolher seu próprio lixo e levar embora, sem deixar jogado no meio da floresta ou às margens das represas. Vamos cuidar, todos”.

    Barragem Pedro Beicht (Foto: cotiatododia)

    Barragem Pedro Beicht (Foto: cotiatododia)

    Visitação

    Qualquer pessoa pode visitar a reserva e tirar um dia de lazer na Barragem Beicht.

    Na manhã que a equipe estava presente, lá tinha amigos e familiares pescando, brincando e preparando um churrasco.

    Escolas podem levar turmas  de alunos e alunas para conhecer a Estação de Tratamento. Basta enviar um e-mail para o visita@sabesp.com.br .

    Visitantes no local (Foto: cotiatododia)

    Visitantes no local (Foto: cotiatododia)

     

    Halitane Rocha
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