O despertar crítico e a música do jovem cotiano Júnior Durães

Por em abril 19, 2017


De família conservadora e filho de militar, o músico conta ao cotiatododia como ocorreu o processo de transformação em sua vida e a sua visão de mundo

Por José Francisco Neto

Nascido e criado em ambiente familiar conservador, Júnior Durães, hoje com 19 anos, teve seu primeiro contato com a música quando frequentava a Igreja Congregação do Brasil. Com nove anos de idade, começou a tocar violino e, aos 13 se interessou pelo violão. Com o passar do tempo, seus ideais foram mudando e sua vida partindo para novos rumores.

“A música, que foi que me segurou dentro da igreja por mais tempo, foi também um dos principais fatores que me deu um certo gatilho para sair de lá. Não tenho condenação contra a igreja, nem nada disso, mas não me sinto contemplado. Após essa fase, passei a ter maior lucidez do que eu queria pra mim”, conta.

Filho de militar, o cantor ainda teve outra barreira para superar: a escolha da profissão. Júnior escolheu ser engenheiro. Por influência da família, começou a desenhar e trabalhar na área. Mas, há dois anos, o curso de história chamou sua atenção.

“Para acontecer esse processo, eu tive alguns pontos críticos. Eu tinha ideia conservadora em todos os sentidos: políticos, econômicos […] quando entrei na Etec, tive esse confronto muito forte dentro da sala de aula […] eu tinha essa firmeza nas posições. O diálogo fez com que eu mudasse muita coisa”, explica.

E foi uma garota que despertou o jovem músico para o lado mais consciente da vida. Ele conta que esse relacionamento mudou completamente seu modo de ver o mundo e as coisas ao seu redor. No entanto, o término do romance, do que parecia ser para ele um sonho, gerou uma grande crise que o ajudou posteriormente.

“Sempre fui muito ciumento. E por não ter tido nenhum tipo de experiência, acabei sendo possessivo. Quebrei a cara com essa postura. A partir desse momento, eu vi que o monitoramento não era o caminho certo. Isso acabou influenciando a minha visão sobre a política hoje, sobre a repressão e tudo mais. Essa pessoa acabou me ajudando muito a me transformar”, relata.

jr-duraes500Essa crise também o ajudou a ter uma visão mais crítica com a Igreja e a profissão. As suas transformações – pessoais, afetivas, políticas e religiosas – começaram a partir daí. Júnior então decidiu conhecer mais pessoas envolvidas com causas políticas e sociais. Foi no Sarau na Praça, realizado na Praça da Matriz, no Centro de Cotia, que ele começou a ter esse contato.

Do sarau, ele conta que foi para as manifestações na Avenida Paulista e também para Brasília, junto com o pessoal da UNE (União Nacional dos Estudantes) apoiar a ex presidenta Dilma contra o processo de Impeachment, em 2016. Foi na capital do país que Júnior conquistou novas amizades e abriu ainda mais seu horizonte na música.

“Lá eu conheci muita gente. Eu já tinha feito a música “Bate Soldado”, que foi uma das principais músicas minhas, e todo mundo adorou. Toquei mais de 20 vezes no ônibus”, relembra.

A letra da canção faz uma forte crítica aos abusos cometidos pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. Júnior conta que foi durante uma repressão que enfrentou na capital paulista que a ideia da composição surgiu.

“Fiquei muito indignado, com tanta repressão e violência. Daí fiz a música. Coloquei os nomes das ruas por onde passei, das praças, e fiz um paralelo histórico para mostrar o trajeto. Quando fiz isso, foi num momento de indignação, não pensei na questão familiar, nem nada”, diz, se referindo ao pai e irmão que são policiais militares.

Júnior revela que essa música gerou um grande desconforto em sua família, mas que isso não o abalou psicologicamente e nem em sua carreira.

“Fui muito criticado pelo meu irmão que também é policial. A reação foi uma questão mais forte. O embate ideológico já existia. Pelo momento de extrema indignação, eu não pensei no âmbito familiar. No momento que compus a musica, não pensei em como seria a consequência, não fico fazendo essa medida.” E finaliza: “Eu não posso anular a minha vida para viver a vida dos outros. Respeito minha família, mas eu tenho a minha linha.”

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