• Corra! – Filme necessário para debate de relações interraciais

    Por em outubro 17, 2017


    O filme traz o debate racial pouco discutido em relações interraciais,  em um dos melhores filmes de suspense do ano, e ganhou dois prêmios pelo MTV Movie. 

    Na minha estreia da coluna do portal cotiatododia, decidi falar sobre um filme que assisti e reassisti por dois dias seguidos, e me tirou o sono: Corra! Apesar da estreia do cinema em maio deste ano, só consegui assistir nesta segunda-feira. O suspense que venceu dois prêmios no MTV Movie – Melhor Comediante (sim, comediante), e o MTV Movie & TV Award for Next Generation, conseguiu ultrapassar os limites de um simples suspense, e conseguiu trabalhar o terror psicológico, o debate racial, e a comédia, dentro de 1h44min.

    O filme conta a história de um jovem negro, Chris (Daniel Kaluuya), que namora há 4 meses com uma moça branca, Rose (Allison Williams), e vai passar o final de semana na casa dos pais dela.  Os primeiros minutos se voltam para a desconfiança de Chris em ser apresentado para a família da sua namorada, sendo ele o primeiro namorado negro e com uma infância muito sofrida, e ela vindo de uma família tradicional com pais formados na medicina.

    A ideia do roteiro veio de um stand up de Eddie Murphy contando como foi conhecer os pais brancos de sua namorada, que Jordan Peele (diretor e ator de Corra!) assistiu.

    O comportamento da família e amigos da moça, tentando ao tempo todo transparecer o quão adoravam o povo negro, com comentários hostis e olhares carniceiros. Os toques desnecessários pelo corpo, falar de: Tiger Woods, o sexo “violento”, e dizer que negro está na moda. Diversos estereótipos reforçados de como é ser um negro e para além disso, o estranho fetiche de ser um negro, mas com comportamentos embranquecidos, como no jeito de falar. Este com certeza é um filme completo, com muito suspenso, terror psicológico e um grande debate racial com quem diz não ser racista, e reproduz a frase “eu até tenho amigos negros” ou melhor, “mas o meu marido é negro”. Chris percebe que corre grande perigo ao perceber como aquela família que tanto o bajula, tem apenas empregados negros que agem como escravos.

    Chris e Rose (Foto: Divulgação)

    Chris e Rose (Foto: Divulgação)

    Mas como isso afeta nas nossas relações? Aprendemos desde criança que quanto mais clara for a pele, mais bonito e mais aceitável aos olhos alheios. Em uma relação interracial, uma pessoa não branca não consegue deixar de ser racista, assim como comprova a pesquisa da psicóloga social Lia Vainer Schucman, que virou tema de pós-doutorado realizado na USP.

    Ao todo foram 13 famílias entrevistas, de diferentes regiões do país, que alegam algum tipo de trauma que as seus filhos tiveram, com as mães brancas que rebaixavam a auto-estima, cada vez que os comparavam com os pais negros, de forma negativa. Assim ela relata a história de uma das famílias:

    “Eles haviam se conhecido em São Paulo. E, quando entrevistei a jovem universitária, estavam separados há muito tempo. O pai já tinha 80 anos; e a mãe, 70”, detalhou a pesquisadora. A jovem relatou a ela que “soube que era negra desde pequena”, devido às violências que sofria por parte da mãe. Quando brigava com ela, a mãe a chamava de “macaca” e “preta fedida”. Dizia que seu cabelo era “ruim” como o do seu pai e batia nela quando chorava ao ser penteada. “Eu olhava para o meu pai, e aquele homem, que tinha uma identidade negra extremamente negativa, se colocava como inferior mesmo”, contou a entrevistada.

    Então, não percam a oportunidade de conhecer esse ótimo filme, que na minha concepção, é o melhor filme de suspense do ano.

     

     

     

    Halitane Rocha
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